sandra souza e moacircaetano
Chegamos ao café com o sol ardendo sobre nossas cabeças. Entramos. Sentamos. Pedimos:
- Dois cafés, por favor.
Ninguém disse mais nada. Engolimos a bebida quente como o dia. Era preciso muito controle ali, um ao lado do outro e o outro ao lado do um. Saímos.
Entramos. O quarto tinha as janelas entreabertas, cortinas. Fechamos tudo, apesar do calor!! Ali começaria nossa tortura insana. Naquele momento o incêndio era iminente.
Mas ainda não era hora! Ainda não estávamos prontos! Mesmo após tantas horas de insônia, tantas trocas de olhares, tantos suspiros entrecortados...
Mesmo após centenas de juras silenciosas... Não, não estávamos prontos! Talvez um de nós estivesse mais certo... talvez para o outro a dúvida fosse mais evidente, mais visível...
Mas de qualquer forma sabíamos... Era inevitável. Tinha de haver a primeira vez. E alguém precisava tomar a iniciativa... Permanecemos inertes. Um diante do outro sem dizer palavra, sem nenhum gesto... Éramos apenas dois corpos. Plenos de desejos. Sem saber ao certo que movimento fazermos para despir-nos das convenções.
Sentíamos o calor do quarto queimando dentro dos olhos... Os olhares cada vez mais provocadores... nossa mudez espalhava-se! E por não sabermos como nos tocar, acendemos a vela que foi deixada em cima da mesinha de canto. Era a maneira mais delicada de inflamar nossa ansiedade. Aquela chama no mínimo nos alcançaria... e por fim seríamos brasa.
Olhamos para a cama. Perfeitamente arrumada para nós. Talvez se alguém se sentasse ali, na beirada, o clima se tornasse mais descontraído. Olhamos sem dar sequer um passo na direção dos lençóis... e finalmente nos encostamos, pesados de culpa. Foi como se recebêssemos uma carga elétrica...
Uma mão tocou a outra. Sem que ninguém soubesse quem iniciou o movimento. Os olhos se fuzilaram. De algum lugar, nasceu um calafrio que nos dilacerou o peito, o estômago, o coração... Quente!
O abraço evoluiu para uma dança. Uma dança insana, sem ritmo, descoordenada. Uma dança de línguas, de braços, de pernas. Uma dança de salivas.
E as mãos dançando entre os tecidos... em passos que iam cada vez mais nos desvencilhando das roupas que, rasgadas, foram abandonadas ali mesmo, no chão. As unhas riscando nossas carnes... pedindo sangue. Quente, muito quente! Suor que lubrificava beijos, acentuando seus sabores.
Agora nossos corpos não tinham mais dúvidas... Apenas o desejo, quase uma entidade física, a nos ensinar os movimentos. Éramos empurrados para o abismo.
No auge da loucura, a penetração era iminente... Paramos! Um barulho de porta se abrindo na sala ao lado...
Minha querida amiga Sandra Souza desapareceu. Sem deixar vestígios.
Seus três blogs foram desativados. Nunca mais apareceu no Messenger. Nem tampouco no Orkut. Não responde mais nenhum email.
Infelizmente, não tenho seus telefones.
Quando ela sumiu, estávamos escrevendo esse texto a quatro mãos. Ficou assim, inacabado. Em suspenso. Assim como agora estou.
Posto o texto como um grito de socorro. Como um sinal de fumaça. Garrafa ao mar...
*Este texto foi postado originalmente em 27/12/2005 pelo co-autor Meu inominável amigo Moacir Caetano.

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