De tudo fica um conto...


Sábado


Felicidade genérica

Tive a brilhante idéia de propor ao Ministério da Saúde que passe a produzir um kit  genérico de felicidade!! Certamente boa parte da sociedade acometida pelo mal do século XXI - o estresse - agradeceria.

Já imaginou o poder da felicidade em versão genérica?!

(Vou tratar de patentear isso!!)

Em linhas felizes gerais, o kit poderia ser composto de

champanhe: porque, se tem alguma coisa capaz de fazer relaxar rapidinho..., com certeza é um bom porre de bebida BOA!

rosas vermelhas (de preferência, colombianas, que são lindas): já que flores, enquanto seres vivos, têm o papel social de alegrar qualquer ambiente!!

um belo conjunto de lingerie (para que as mulheres possam usar com o homem da sua vida... e para que os homens possam presentear a mulher da sua vida): afinal, nada melhor do que um amor bem-feito com quem a gente ama ...para aliviar o estresse...!!

E, claro, os itens opcionais, como: vale-CD (para não limitar... já que nem todo mundo tem o mesmo gosto musical!), velas perfumadas, incenso, óleos de massagem, sais de banho... e outras bugigangas esotéricas da moda. Uma caixa de trufas - ou bombons (também disponíveis em versão diet... para evitar a desculpa esfarrapada de que doce engorda)....

E tudo que sua imaginação for capaz de suportar pra sua felicidade!!!!!

 

Alguém se habilita a começar os testes para comprovar a eficácia do método??

(Duvido que o nível de estresse se mantenha alto após a aplicação desse tratamento genérico de felicidade...)

Escrito por Sandra Regina de Souza às 20h29
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Entre guardados e perdidos

Todos os fins de semana eram iguais: ela se levantava cedo, tomava banho, se perfumava... e ficava ali pronta pra ele. Ele sempre vinha pela manhã, bem cedinho... Gostavam de começar o dia daquela maneira excitante: pêlos emaranhados, rostos úmidos, sensações que tornavam seus corpos mais vivos...
Hoje ele se atrasou.
Pior: não veio.
Ela permaneceu ali plantada no mesmo sofá por horas, aguardando uma notícia, um telefonema avisando que houve um imprevisto, um e-mail enviado na véspera explicando que surgiu uma viagem com os filhos de última hora... Nada.
À noite, quando percebeu que o dia tinha terminado, ela chorou todas as lágrimas do pouco-caso. Ela se descabelou toda por ter sido deixada ali como mobília empoeirada... gritou baixinho dentro do seu quarto: queria que ele morresse!
Ela desejou que ele nunca mais lhe dissesse nada, que não voltasse jamais a vê-la, a procurá-la... queria esquecer que conheceu o amor da sua vida um dia... tão despretensiosamente...
Ela adormeceu entre as almofadas do sofá... as gastas almofadas que ela jurou depositar no armário junto com as quinquilharias que ele detestava... as almofadas resistiram... e por isso estavam ali... e naquela noite foram as velhas almofadas que lhe deram consolo e aconchego...Por isso ela nunca mais permitiria que ele voltasse.

Escrito por Sandra Regina de Souza às 20h27
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Não aconteceu nada

Ela não dizia nada. Diante daquelas irreconhecíveis sílabas pronunciadas em voz vacilante que chegava aos seus ouvidos, ela permanecia muda. Enquanto milhões de sonhos impossíveis trafegavam livremente por seus pensamentos desobstruídos... Ele cuidou de contar-lhe uma história fantástica ao descrever como fizera para desvencilhar-se da esposa antes de encontrá-la... Ela calada... cerrou os olhos e o monólogo se encerrava ali: desmaiou.

"Acorda! Acorda! O que está acontecendo? Você está bem??" – ele disse sem obter a resposta desejada. Ela parecia dormir profundamente, sem respirar... a expressão do rosto denunciava certa satisfação, mostrava um sorriso traçado com batom cor-de-rosa.

Ele não entendia o que se passava ali com aquele corpo caído em suas mãos. Queria demonstrar um autocontrole emocional inexistente em casos como esse (desesperador).

Secava o rosto com a saia que compunha o vestido que ela usava. Suava muito. Desesperava-se mais e mais ante aquela mulher estendida na sua frente... E ela continuava imóvel.

Aos poucos, lentamente, ela começou a dar sinais de vida àquela massa de carne e sangue...

"Nossa! Estou zonza... acho que desmaiei..." Ela confirmava o que ele já havia notado. Ele sorriu aliviado e tomou-a nos braços com força, de um jeito firme e acolhedor. Ele chorou silenciosamente; estava tenso em toda extensão de seu corpo magro e bem cuidado. Ele não queria que ela ouvisse seus soluços de aflição... calou depressa a angústia de estar diante de uma quase desconhecida e vê-la esmorecer-se ali sem que ele pudesse fazer nada.

A palidez de sua face ia com parcimônia se desfazendo; o tom rosado voltava às suas bochechas, seus lábios já não eram como de cera. Ela finalmente estava acordada e viva.

Olhou para ele com a profundidade de quem quer morar nos olhos do outro; era uma invasão aquele seu modo de olhar! Ele ainda estava tomado pelo susto, atordoado com aquele inusitado e inesperado e indesejável momento de asfixia por que passara... era inacreditável que logo na primeira tentativa de traição à sua esposa, ele se via numa situação tão delicada.Seria só um elemento a mais, uma história que, se contada, viraria piada. Ele não via graça nenhuma... estava paralisado com a cena insólita e bizarra da qual era protagonista. Tudo absurdamente novo e desconcertante.

Claro que depois disso não teve mais criatividade para nenhum assunto... Aquela investida acabaria ali mesmo. E ela partiria sem ter dito a ele sequer o seu nome!

Escrito por Sandra Regina de Souza às 20h23
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Última cena

O romance entre eles parecia ir bem... muito beijnho, muita conversa, muito mimo!! Um dia, sem mais nem menos, ele disse que não era amor. Que aquilo que viviam era um filme de quinta categoria, sem originalidade, totalmente clichê. Ia embora. Não podia ficar mais dividindo a cama com uma mulher tão dada, uma mulher tão dedicada... uma mulher apaixonada.

Declarou todo seu desinteresse por ela, fechou a porta do banheiro e abriu a torneira. O jorro da ducha engolia os soluços que ela derramava na cama. Lençóis cobriam o corpo magro e infeliz que insistia em mantê-la viva... O banho demorando-se.

Vestiu-se sentindo uma pontinha de dor... na ponta dos dedos, no canto da unha. Quase indolor, pouco lhe doía. Acendeu o cigarro... usando a fumaça como cúmplice da sua indiferença ao bater a porta sem olhar para lado algum.


Ela calou aquele choro de piedade insuportavelmente mendicante... Levantou-se, caminhou até a janela com vista para a rua e abriu a vidraça. O ar, o vento, a vida... tudo entrou por aquela minúscula fresta.
Ali, ela sorriu... entristecida e sozinha.... Arrancou do rosto as marcas da despedida com as costas da mão... limpou dos lábios o desejo de pedir que ele ficasse.

        

Olhou à sua volta: a casa tomada por fantasmas de um amor eterno que sucumbiu desde o início... um amor perverso e misterioso. Um desamor. E o que restou do lado de dentro das paredes foi um abandono explícito de corpos que se consumiram ardentes...

Só lhe sobrou a pergunta: Onde pôr as cinzas em que se transformou aquela paixão? ...Ela respirou as últimas partículas do oxigênio que partilharam... soprou suas esperanças poluídas... Caiu do décimo andar.

Escrito por Sandra Regina de Souza às 20h21
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